501 anos de Reforma Protestante: Fé e movimentos populares

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Por Marcos Fellipe

Política e religião são dois campos distintos das práticas humanas, mas caminham juntas no emaranhado de relações que constroem nossas experiências. A reforma protestante foi um movimento político religioso que seguiu uma tradição de ruptura com o estabelecido, como se deram outros movimentos da fé cristã.

O Movimento de Moisés ou da Libertação

O Êxodo é talvez uma das narrativas mais importantes do texto bíblico, porque narra o nascimento do povo hebreu, do qual surgirá três das seis maiores religiões mundiais: cristianismo, islamismo e judaísmo. O Movimento de Moisés, narrado no Êxodo, trata da insurreição de escravos africanos (sim, porque nasceram no Egito) contra o Estado que os escravizava, personificado na pessoa do Faraó. O êxodo serve como exemplo bíblico de que a intervenção De Deus, não se dá apenas no campo religioso, mas para livrar o povo de todo e qualquer tipo de opressão, seja religiosa, econômica, política, social ou cultural.

O Movimento de Jesus

Um dos destaques do Movimento de jesus é a sua pregação sobre o estabelecimento do reinado de Deus. “Reino de Deus” é uma expressão política subversiva. “Sub-versiva” porque cria uma nova versão, uma “sub-versão”, traz um novo significado ao estado de coisas ao qual estava submetido o povo da época. Quando o carpinteiro de Nazaré declara q Deus é o Rei, trazia nessa afirmação uma outra muito perigosa. Declarar que o reinado é de Deus significava não reconhecer o reinado ou o poder opressor do Império e de seus reis. Mais do que deslegitimar os poderes de sua época o “Reino de Deus” era o reino de todos, porque todos eram filhos de Deus, filhas e filhos do Deus Rei. Anunciar tal projeto não garantiu ao carpinteiro um lugar de destaque nos palácios, mas sim seu assassinato. Jesus de Nazaré foi julgado como criminoso e, depois de ter o corpo estraçalhado por soldados, foi pendurado na máquina de tortura da época, a cruz.

O Movimento da Reforma Protestante

O Movimento da Reforma protestante é conhecido a partir de líderes como Lutero e Calvino. No entanto, os movimentos populares também foram a base de sustentação desse processo.  O movimento dos camponeses anabatistas, a partir de leituras populares do texto bíblico, reivindicava a separação entre Igreja e Estado, a não aceitação do batismo infantil e relações mais justas entre os Senhores (latifundiários) e camponeses. Esses elementos combinados causaram uma das maiores perturbações na Europa do século XVI. Era importante reformar, renovar, mostrar nova cara, estabelecer novas práticas cristãs que se reaproximassem das práticas de Jesus e do “cristianismo primitivo”. Para reformar era necessário protestar contra decisões e poderes. A Reforma protestante, nesse sentido, se associa às tradições subversivas do cristianismo que protesta permanentemente contra a atitudes opressoras e idolátricas de colocar no lugar do Deus absoluto, coisas, pessoas, ideologias e instituições.

Movimentos religiosos populares e Instituições, hoje

Parte desses movimentos, mais tarde, transformaram-se em Instituições e foram assimiladas pelos poderes políticos e religiosos oficiais. Foram os religiosos oriundos do movimento libertador de Moisés (fariseus e saduceus) que perseguiram o Movimento de Jesus, aliados ao Império Romano, Foram religiosos oriundos do Movimento de Jesus que aliados aos Reis do século XI ao XIII realizaram os maiores e sanguinários massacres da história nas, chamadas, Cruzadas. E, finalmente, hoje foram parte de nossas instituições cristãs, oriundas do movimento protestante que elegeu Jair Bolsonaro presidente.  A igreja se alia, mais uma vez, ao Estado para perseguir minorias e até professores.

Nossa esperança e certeza é que o mesmo Espírito que sopra e movimenta a História continuará soprando coragem, para protestarmos por libertação de todo e qualquer tipo de opressão.

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