Concepções da Pedagogia Freiriana

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Todo planejamento educacional, para qualquer sociedade, tem de responder às marcas e aos valores dessa sociedade. Só assim que pode funcionar o processo educacional, ora como força estabilizadora, ora como fator de mudança (PAULO Reglus Neves FREIRE).

Liberdade, opressão, esperança, autonomia, pergunta, indignação: concepções que ecoam da Pedagogia Freiriana. Não são apenas termos, são convites à prática, à revolução de ideias, de pensamentos, de posturas.

Em Paulo Freire, as identidades, as memórias, as experiências, os saberes, as ousadias, consciência, circunstância, convivência, dinamismo, os contextos, as culturas, as histórias, os escritos são algumas das dimensões que atravessam a práxis educativa … que impulsionam a vida. Mas, apesar desse turbilhão de elementos que compõem os modos de ser, de pensar e de existir dos corpos e das vozes que coexistem e, com isso, tem a escola como espaço de sociabilidade são referenciais, por vezes, silenciados (as).

Como forma de anunciar que, no cotidiano que pulsa, toda homenagem ao educador nordestino Paulo Freire é um ato de resistência que coaduna com a perspectiva de uma sociedade democrática, arvoro-me a refletir sobre a “cultura do silêncio” – conceito que emerge da obra de Freire. Para tanto, utilizarei alguns trechos de Educação e Atualidade Brasileira, a tese deste renomado pesquisador brasileiro para a cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes de Pernambuco (1959).

Implicada há algum tempo a repensar o não-dito em nossas trajetórias, manifesto que esse caminho já fora ladrilhado pelo respeitado escritor Paulo Freire. Enfim, nada de novo, contudo, urgente, sobretudo, em razão do cenário em que nos encontramos na atualidade: de perspectiva de emudecimento das nossas manifestações, de estagnação e descredenciamento de nossa consciência democrática em prol de um modelo nacional que nos alije como autores (as) dos processos de construção e reformulação da sociedade brasileira.

Sem pretensão de esgotar o tema, e sim, de que possamos permanecer a incluir em nossas práticas atos explicitamente políticos que se comprometam com a garantia de direitos e traduzam a ideia de que “não há atualidade nacional que não seja processo histórico” (FREIRE, 1959, p. 23) e de que “Não há como concebermos uma educação, numa sociedade democratizando-se, que leve o homem a posições quietistas (Idem, 1959, p 34), conclamamos a sociedade brasileira a repensar suas ideologias, a rememorar seu passado e a vislumbrar um futuro em que a espoliação social tenha sido superada tendo por fundamentos, especialmente, os saberes e os fazeres que emergem do “chão da escola”.

Que a “cultura do silêncio” referente ao não lutar pelos direitos e/ou pela plenitude da vida esteja distante do currículo escolar no qual somos partícipes. Que, em decorrência aos ensinamentos de Paulo Freire, possamos aprender com as diferenças socioculturais e validá-las como substrato das vivências pedagógicas em prol da tão almejada justiça social.

Como sabiamente nos sugeriu Paulo Freire, que possamos por meio das leituras nas entrelinhas:

Esperançar no arregimento de condições para repudiar as desigualdades;
Espera…r quando a sabedoria for o lastro das decisões;
….rançar (ter ranço) das vicissitudes ocasionadas pela negligência.
Enfim, que o nosso silêncio não seja procedimento de omissão frente às barbáries que se impõem como naturais no tecido social brasileiro. Se optarmos pelo silêncio, que ele, estrategicamente, nos sirva como expediente circunstancial para a ressignificação de nossa práxis com vistas a revelar e a dirimir as hierarquizações sociais em suas diversas manifestações.

Carla Santos Pinheiro. Professora de Educação Infantil da Rede Municipal de Educação de Lauro de Freitas. Presidenta Interina do Fórum Municipal de Educação Infantil de Lauro de Freitas (FMEI-LF). Mestranda em História pela UNEB no Programa de Pós-Graduação Estudos Africanos, Povos Indígenas e Culturas Negras (PPGEAFIN). Membro do Grupo de Estudos Relacionados à Educação Infantil (GEREI).

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