A arte de ensinar a pensar: a importância de refletir sobre a mulher na sociedade contemporânea

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Ilustração de Annie Nicoletta Ceccoli

*Por Raquel Maciel Paulo dos Anjos

A educação básica é, sem dúvida, o campo de atuação profissional de maioria feminina, assim como vemos na Rede de Lauro de Freitas.  E, coincidentemente ou não, é a profissão de nível superior que ainda ganha menos e que mais luta por melhores condições de trabalho. Atuar na educação básica no Brasil é um desafio, e, para quem é consciente do seu papel social, é também uma luta diária. A professora faz de sua prática em sala de aula uma verdadeira arte quando ensina muito mais que apenas os conteúdos de sua disciplina, mas através do exemplo, na criatividade na lida com escassez de recursos materiais e com as péssimas condições de trabalho, além da desenvoltura na relação com os mais diversos problemas sociais estruturais. Mesmo em meio aos golpes contra a educação, muitas persistem a estudar, pesquisar, criar e se reinventar, buscando alternativas transformadoras e participando tanto das atividades escolares quanto das ações sociais e políticas na tentativa de melhorar a realidade em que atua. A educadora consciente do seu papel não apenas ensina os conteúdos de sua disciplina, mas pensa a educação, o seu contexto e se reinventa. 


Pensar sobre o lugar em que a sociedade tem colocado a mulher não deve ocorrer apenas em torno do dia internacional da mulher, mas porque as mulheres, em especial as mães, são base da nossa sociedade. Muitas sustentam a casa e cuidam dos filhos mesmo sem o apoio dos pais. Aliás, observando o mapa da violência na Bahia e no município de Lauro de Freitas vemos o feminicídio crescer vertiginosamente. As campanhas mais recentes, divulgadas na TV e nas ruas, não são suficientes para educar uma sociedade estruturalmente machista, que tem reservado para mulher um lugar ainda inferiorizado. Mesmo considerando as conquistas dos movimentos feministas, a mulher ainda não é completamente livre, com homens legislando sobre o seu corpo, como o atraso da ilegalidade do aborto. A mulher, de modo geral ainda ganha menos do que o homem. Ainda luta para ser respeitada no trabalho e em cargos de liderança. Luta pelo direito de ser mãe. Pelo direito de ser mais que um corpo. Pelo direito de ter um corpo. E ainda luta contra relacionamentos abusivos e pelo direito de não ser assediada pelo simples fato de ser mulher.

Muitas foram as conquistas das mulheres e ocupamos cada vez mais espaços. Mas ainda temos um muro enorme a destruir se quisermos construir uma sociedade que ofereça equidade em seus direitos.  Por isso, a escola, independentemente da disciplina, deve atuar de modo a desmascarar as injustiças e o machismo que se revelam nas entrelinhas.  A conscientização é fundamental para engendrar transformações de base – e essa conscientização deve acontecer a partir da experiência da reflexão. Pensando em promover um processo educativo significativo e transformador é fundamental que, enquanto educadoras e educadores, façamos da escola um espaço de acolhimento, expressão criativa e reflexão onde meninas e meninos obtenham iguais direitos e deveres. Assim, formaremos cidadãs e cidadãos capazes de agir de maneira crítica em meio aos desafios de uma sociedade mergulhada em transformações.

* Professora de Filosofia de Ensino Fundamental II na Escola Municipal de Vida Nova. Mestranda em Gestão e Tecnologias Aplicadas à Educação pela UNEB. Possui graduação em Filosofia e especialização em Arte Educação, Cultura Brasileira e Linguagens Artísticas Contemporâneas pela UFBA.

5 COMENTÁRIOS

  1. Cada vez mais estaremos unidadas por toda e qualquer ameaça aos nossos direitos, de olhos bem abertos! Parabéns Raquel, seu texto expressa muito bem a nossa realidade!

    • A imagem recebeu uma pequena distorção… A original de Annie Nicoletta Ceccoli chama-se “Corvos”. Grande artista!

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