Educação antirracista e pesquisa transformam a prática escolar e elevam índice do IDEB da Paulo Freire

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“O quilombo é um avanço, é produzir ou reproduzir um momento de paz. Quilombo é um guerreiro quando precisa ser um guerreiro. E também é o recuo se a luta não é necessária. É uma sapiência, uma sabedoria. A continuidade de vida, o ato de criar um momento feliz, mesmo quando o inimigo é poderoso, e mesmo quando ele quer matar você. A resistência. Uma possibilidade nos dias de destruição”.
Maria Beatriz Nascimentos

A ideia de quilombo colocada acima de nossa querida Beatriz Nascimento é o movimento inspirador da nossa comunidade escolar, oras somos paz, outras guerra, recuo, sabedoria, mas o tempo inteiro, somos resistência. A única forma de coexistirmos é através da construção de novas possibilidades pois nós discentes e docentes somos ainda a maioria, no chão da escola pública, formada pelos mesmos pretos, os mesmos pobres em contínua luta pelo direito a liberdade.
A Escola Paulo Freire atingiu com o resultado do IDEB relativo ao ano de 2019 um avanço do índice de 4.1 para 5.9, outra escola também atingiu esse mesmo índice a Escola Municipal de Capiarara, provavelmente, o maior índice que o município já teve.
Em nossa escola esse resultado é desdobramento de uma política escolar que investigou as causas das crianças pretas e pobres não estarem aprendendo, construiu alternativas para trabalhar sua baixa autoestima, repensou quadro de professores, criou um funcionamento específico para o processo de ensino e aprendizagem de todas e todos os estudantes, onde o nosso maior desafio vem sendo garantir direitos de aprendizagens desde a primeira etapa que ofertamos em nosso recinto escolar que refere-se as turmas da pré-escola da Educação Infantil até o 5o ano do Ensino Fundamental.
Foram muitos debates, decisões, inquietações para criarmos étno-métodos, que seria, entre outros aspectos, ações construídas por sujeitos criadores que forjam e organizam suas realidades socioculturais e teorizam sobre elas, estão sempre vinculadas às implicações e realizações destes sujeitos sobre suas realidades cotidianas (MACEDO, 2016).
Em 2013 quando entrei na unidade escolar como coordenadora pedagógica pude observar vários aspectos que indicavam os limites de aprendizagem, desde as questões externas as questões internas a escola, refletindo sobre as condicionantes internos, entre elas, estavam a baixa autoestima dos discentes, rotatividade dos professores, rotatividade dos alunos em um mesmo ano letivo, insucesso escolar, falta de acompanhamento da família de maneira geral, necessidade de formação continuada, falta de especialistas para uma proposta de educação inclusiva, indisciplina, reestruturação da infraestrutura, entre outros aspectos. Esse diagnóstico foi construído através de observações e de um trabalho conjunto envolvendo toda a comunidade escolar na intenção de construirmos uma política interna que desse conta de reconfigurar esses indicadores visando a garantia dos direitos de aprendizagens.
Levantar nosso diagnóstico foi essencial para cada decisão tomada dentro da escola, inclusive para a realização de uma pesquisa escolar que possibilitou traçarmos o perfil do estudante da escola, investigação esta que envolveu todos os estudantes.
Usamos como aspecto direcionador duas perguntas, no instrumento utilizado constava em cada página uma frase afirmativa com espaço para as crianças desenharem e escreverem, as afirmações foram as seguintes: Eu gostaria de ser assim e Eu sou assim. As imagens abaixo ilustram os elementos que conformam o instrumento.
Essa pesquisa foi feita pela coordenadora pedagógica da escola, envolvendo todas as crianças discentes de todas as turmas da escola, após levantamento, criação de categorias, análises apresentamos os resultados para os professores e todos os educadores, e para as famílias em amplos fóruns de discussões. O objetivo era compreender como as crianças se percebiam, uma vez que já nas observações que precederam essa pesquisa já havíamos levantado a hipótese de uma baixa autoestima presente entre os sujeitos da aprendizagem no contexto escolar, mas as respostas também foram potentes para pensarmos interseccionalidades entre alguns marcadores sociais como raça, sexo e classe social (DAVIS, 2016).
Como vocês podem ver abaixo são alguns exemplos ilustrativos de documentos produzidos pelas crianças estudantes da escola durante o período da pesquisa que foi realizada entre abril e maio de 2013.


Figura 1 – Exemplo de respostas das crianças estudantes da escola.
Fonte: Arquivo pessoal

Os dois primeiros exemplos conformam a maioria das respostas, ao tabular os dados, identificamos que 92% das crianças através de suas ilustrações e escritas demonstraram uma baixa autoestima, e 8% representações que desvelam pensar autoestima.
Das meninas que produziram essa atividade 90% indicaram a insatisfação com suas condições socioeconômicas tanto quando citaram quererem ser ricas como quando indicaram narrativas apontando para a desvalorização das profissões de suas mães, pais e responsáveis, que na quase totalidade formada por trabalhadores braçais e informais.
E ainda, como as meninas e meninos demonstraram não identificação a identidade negra, bem como, apontaram desejo em fazer parte de outra classe social como consta no exemplo acima “Eu gostaria de ser magra, de ser loira, olhos verdes e de ser rica”. Demonstrando de alguma forma o reconhecimento, mesmo, talvez, sem tanta consciência, sobre o que representa ser menina negra, pobre da periferia, ou seja, um lugar social que vem se construindo por conta do processo civilizatório vivenciado no Brasil carregado de negatividade e desvalorização.
A mulher negra ocupa os piores índices ao que se refere a violência e que nos permite entender essa negação por parte da maioria das meninas negras da escola sobre suas marcas identitárias ao que se refere a raça, gênero e classe social (ASSIS, 2019).
A realização desta pesquisa foi relevante pois possibilitou um amplo debate em torno destes marcadores sociais e decisivo para tomarmos algumas decisões sobre o nosso Projeto Político Pedagógico e as modificações necessárias para repensarmos a interseccionalidade entre raça, gênero e classe social o que exigiu que nossas proposições metodológicas se pautasse em um trabalho na perspectiva de uma educação antirracista, antissexista, anticlassista e emancipadora e transgressora.
A base do nosso fazer cotidiano se apoiou no letramento literário afrobrasileiro, pois se por um lado contribui com nosso trabalho de elevação da baixa autoestima por outro possibilita um fazer criativo, lúdico, e, sobretudo, autônomo, crítico e dissidente. De nossas ações escrevemos duas literaturas infanto juvenil negra e interseccionais Rainhas e Reis sendo uma com participação das crianças, e, ainda, diversas outras produções literárias escritas pelas crianças.
Quando pensamos os direitos de aprendizagens, nas habilidades mínimas necessárias a formação discente, um conjunto de saberes e fazeres foram acionados. Realizamos um trabalho extenso, que precisou de um tempo para se consolidar, foi a concepção que nos embasa que permitiu a tomada de várias decisões como o perfil da professora para cada turma, o rigor metodológico e avaliativo sobre os critérios para aprovação de um ano de escolarização para o outro, o formato do funcionamento da turma do 5º ano, os exames realizados, as estratégias para não haver faltas nas aulas e nos simulados e etc..
É importante destacar que a turma do quinto ano funcionou com um tempo de aprendizagem 40% maior, pois os estudantes tinhas aulas em 7 turnos na semana, as aulas obrigatória e de acordo com a matriz curricular em 5 turnos pela manhã e aulas de ampliação da aprendizagem em dois turnos pela tarde, reorganização esta discutida e aprovada internamente na escola e apresentada e validada pelos familiares em reunião.
Desta forma a professora dos componentes curriculares Português e Matemática contou com uma carga horaria com mais 8 horas, consideramos esta característica somada a todos os aspectos de nossa política educacional essencial para esse resultado. Toda a escola ao longo de anos é responsável por este resultado, mas é de extrema relevância destacar o papel de todas as professoras e os professores, em especial a professora Flávia Mendes Pita, responsável pelo ensino dos componentes curriculares Português e Matemática, que teve suas 40 horas voltadas exclusiva para a única turma de 5º ano do ano de 2019, onde trabalho manhã e tarde junto a turma.
Ela dedicou-se profundamente ao seu fazer escolar e construiu junto as crianças, estudantes da turma, uma experiência empoderadora, investigativa, crítica, cooperativa, questionadora e autônoma durante todo o ano letivo e desenvolveu um método de ensino extremamente eficaz, onde as crianças eram sujeitos ativos e elas mesmas identificavam junto a mediação da professora as habilidades que mereciam mais atenção e ampliavam nas aulas no contra turno.
E ainda, e, principalmente, reconhecemos os discentes os principais atores curriculantes deste processo. Parabéns ao trabalho sério e coletivo e a todas e todos que nos ajudam a fazer do cinza sensibilidade, afeto, transformação e transgressão no recito escolar.
A certeza que fica é que em nosso quilombo subjetivo ainda há muita coisa a ser feita para honrar a ancestralidade que lutou e resistiu pelo nosso direito de ocupar o chão da escola e que o trabalho sempre continua pois estamos bem no início.

Em 15 de setembro de 2020

Texto: Ladjane Alves Sousa
Coordenadora pedagógica da Escola Municipal Paulo Freire

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