Sobre lutas, resistências e Paulo Freire…

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Ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, da boniteza e da alegria.
(Paulo Freire)

Fátima Santana Santos

No ano de 2005, ingressei no curso de Pedagogia pela Faculdade de Educação da Bahia, foi lá que tive meu primeiro contato com as obras do grande pensador, filósofo e educador Paulo Freire.

Tantos anos atuando no chão da escola, mais especificamente na Educação Infantil, e, em diálogo constante com professoras que atuam com crianças, sei o quanto as ideias e reflexões de Freire são importantes para nossa atuação docente. Aprendemos com Freire que ter um posicionamento político, crítico e consciente, dentro do sistema escolar, também é um ato de amor.

Ressalto que sou mulher preta e professora e que tenho atuado há quase uma década na coordenação pedagógica do Centro Municipal de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos tenho trilhado caminhos dialógicos em espaços escolares, e me deparado com professoras sendo chamadas e consideradas “Tias” das crianças, o que Paulo Freire em seu livro Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar (1993) nos chama atenção sobre os perigos figurados em ser “Tia” no espaço escolar, e sobre o nosso papel enquanto professoras, dando sentido e significado a nossa profissão.

[…] Identificar professora com tia, o que foi e vem sendo ainda enfatizado sobretudo na rede privada em todo país, é quase como proclamar que professoras, como boas tias, não devem brigar, não devem rebelar-se, não devem fazer greve. Quem já viu dez mil “tias” fazendo greve, sacrificando seus sobrinhos, prejudicando-os no seu aprendizado? […] (Freire, 1993, p. 30-31)

Freire nos inspira para uma pedagogia outra, nos ajudando a forjar a nossa atuação docente em um processo contínuo de ensino-aprendizagem que envolve militância e luta por uma educação de qualidade. Como ele mesmo diz em seu livro, que recusar a figura de ser “Tia” dos nossos educandos e afirmar o significado de ser professora, expressa o nosso rompimento com um processo ideológico oculto, representado por uma figura que retira de nós a nossa identidade política (FREIRE, 1993).

Neste sentido, Paulo Freire nos provoca e nos convoca a sermos professoras a partir de uma visão e ação crítica, nos posicionando de um lugar. Lugar este que reivindica não só nossos direitos, como, também, o nosso lugar de fala (RIBEIRO, 2017). Portanto, reverenciar Paulo Freire em seu centenário significa trazer a experiência do amor, da esperança e do afeto como experiência de luta e resistência.

Saudamos o nosso patrono nesses dias, e em tantos outros, considerando, mesmo em dias sombrios, continuarmos tendo coragem e compromisso de nos mantermos vivas e com a nossa esperança acesa, imbricadas com uma educação libertadora, popular e democrática.

Pactuamos com seus ensinamentos, conscientes sobre o quanto é desafiador ter uma atuação política no chão da escola, estando atentas de que a melhor forma de avançarmos em nossas lutas é continuarmos seguindo de maneira coletiva, amorosa e irmanada, para que nós, professoras da Educação Infantil, sejamos em potência, ação e afeto, verdadeiramente respeitadas e tratadas com dignidade.

Consideramos que não existe alternativa outra de dignidade que não esteja entretecida em seguirmos em luta com nossas crianças, sobretudo as pretas e pobres, que, em sua maioria, estão em nossas escolas públicas. Lutaremos para que elas tenham direito de Ser e Existir (LUZ, 2013), traduzido em afroafetos e em experiências com a felicidade. Professora, sim; Tia, não. Brindemos ao grande mestre Paulo Freire!

Referências:
FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. Olho d’Água, 1993.

LUZ, Narcimária Correia do Patrocínio (org.). Descolonização e educação: diálogos e proposições metodológicas. Curitiba: CRV, 2013.

RIBEIRO. Djamila, O que é o lugar de fala? Belo Horizonte: Editora Letramento, 2017. (Coleção Feminismos Plurais).

Fátima Santana é Mestra em Ensino das Relações Étnico-Raciais – UFSB, possui graduação em Pedagogia – Faculdades Integradas Olga Mettig (2008), atualmente é Coordenadora Pedagógica do Centro Municipal de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos, foi ganhadora do Prêmio Arte na Escola Cidadã no ano de 2015 no segmento educação infantil, com o projeto Dr. Djalma Ramos e seu amor por Riachão, é Especialista em educação Integral para Gestores e Coordenadores da Rede Pública de Ensino da Região Metropolitana de Salvador, e em Educação, Pobreza e Desigualdade Social – UFBA. No ano de 2019, foi aluna da III Escuela Internacional de Pos Graduado Más allá del Decenio Internacional de los Pueblos Afrodescendientes em Cuba (CLACSO), Atuou como tutora desde o ano de 2012 e como professora formadora no curso de pedagogia UNEB EAD em 2019.

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