UM HOMEM CENTENÁRIO: Paulo Freire e seu legado por uma educação crítica e transformadora

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Por Ladjane Alves

Tem alguns nomes que marcam um tempo, um lugar, através de seus feitos, dos seus pensamentos, escritos e paixões. Havia uma prática insistente de valorização de destaque aos grandes nomes oficiais, mas a revisão da história das elites que vem se ampliando desvela as existências e contribuições de outras atrizes e atores, outras narrativas. Algumas destas pessoas atravessaram fronteiras despertando em tantas mulheres e homens a consciência coletiva. Paulo Freire, como é conhecido em todo o mundo, é um desses nomes que se mantém vivo nos conciliando, nos questionando e nos inspirando nas tantas lutas por uma educação humanizada, emancipada e transformadora através de um legado, de uma filosofia da educação.

Em 19 de setembro de 1921 nascia, em Pernambuco, Paulo Reglus Neves Freire, o nome de um homem que completou nesta semana um centenário. Citamos uma existência pois sua presença resiste em nossos corpos, nossas práticas docentes, nossos movimentos, nossas lutas, nossos enfrentamentos por uma pedagogia libertadora.

Paulo Freire, formou-se em direito, entretanto, desde suas primeiras experiências profissionais, exerceu a docência. Foi casado com a senhora Elza Costa, sua primeira esposa, com quem viveu por mais de 40 anos até os dias findos da vida dela, uma professora. Registrar a presença desta companheira, é relevante, pois suas experiências, muito, provavelmente, têm relação com as trocas, diálogos e práticas que os atravessaram. É necessário citar, pois as histórias dos homens se entrelaçam com as  histórias das mulheres e com a cultura feminina.

Quando exilado no Chile, logo no primeiro ano da Ditadura Militar por ser considerado nocivo a sociedade, escreveu em 1968 o manuscrito a Pedagogia do Oprimido, que foi publicado em 1970 e atualmente se constitui como o terceiro livro mais lido no mundo na área das ciências sociais. Foi oficialmente reconhecido como o patrono da Educação Brasileira através da lei n. 12.612 de 13 de abril de 2012 sancionada pela presidenta da República, a senhora Dilma Rousseff, devido, entre outros aspectos, por ter construído bases epistemológicas relevantes para uma pedagogia crítica que tanto vêm contribuindo com o nosso fazer e refazer político, profissional, e, desta forma, contribuindo com as transformações das sociedades por todo o mundo. Esse título vem sendo questionado por alguns segmentos da sociedade brasileira, desta maneira, faz-se necessário nos questionarmos: O que se deseja romper?

Sua obra se compromete com os oprimidos, com uma educação que possibilite uma consciência coletiva crítica capaz de repensar sua condição de oprimido, característica essa muito valiosa, considerando que as bases dos desenvolvimentos das sociedades vêm se estruturando a partir de um desenvolvimento econômico que produz e reproduz diversas formas e expressões de opressões.

Com reconhecimento, respeito, admiração e afeto fazemos desta escrita uma carta pública de agradecimento e homenagem para com a narrativa de um homem que reforça em nossas almas que a consciência coletiva é a possibilidade  de transgredirmos a todas e cada forma de opressão que o poder hegemônico nos impõe. Compreendermos à docência como uma sensibilidade de luta, uma presença política relevante na construção da consciência coletiva revisando através de nossas práticas, para toda a sociedade e para nós mesmos, as experiências insistentes que se atrelam a matriz colonial, o patriarcado, a heteronormatividade que ao buscar a desumanização da nossa existência reforça e ratifica em nós a necessidade da construção de uma pedagogia da liberdade, pois “ a educação é uma forma de intervenção no mundo”( FREIRE, 2006, p. 61 )[1].

Com carinho, saudamos Paulo Freire. 

Ladjane Alves Sousa[2]

[1] FREIE, Paulo Reglus Neves. Pedagogia da autonomia. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e terra, 1996.

[2] Nascida na cidade de Salvador, Bahia, em 8 de junho de 1980. Docente e coordenadora pedagógica em Lauro de Freitas. Formada em Pedagogia (2008) e mestra em Educação e Contemporaneidade (2012) pelo UNEB. Doutoranda em Educação pelo UFBA. Membro pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Educação e Currículo (GPEC) e do grupo de pesquisa História e Memória da Educação Brasileira (HIMEB). Sensível à escrita poética, tenho alguns poesias e contos publicados. Tenho interesse em temas ligados a história da educação, memória, biografia, narrativa, descolonialidade, decolonialidade e interseccionalidade entre gênero, raça e classe dos grupos populares.

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